MANDURI: um nome, seis abelhas diferentes

No Brasil, o nome popular "manduri" não se refere a uma única espécie — é usado popularmente para pelo menos seis abelhas sem ferrão distintas do gênero Melipona, espalhadas por regiões e até subgêneros diferentes.

MANDURI: um nome, seis abelhas diferentes

Se você já ouviu falar da "manduri" e foi pesquisar sobre ela, pode ter se deparado com uma certa confusão. Isso porque, diferente do nome científico — que identifica uma única espécie de forma inequívoca em qualquer lugar do mundo —, os nomes populares das abelhas sem ferrão variam de região para região, e frequentemente o mesmo apelido é usado para espécies completamente diferentes.

"Manduri" é um dos exemplos mais claros desse fenômeno. Pelo menos seis espécies distintas do gênero Melipona já foram documentadas recebendo esse nome (ou variações dele, como "mandurim" e "monduri") em diferentes partes do Brasil e da América do Sul:

Melipona marginata marginata — a espécie-tipo do subgênero Eomelipona, com ampla distribuição pelo Sudeste e Nordeste brasileiro, é uma das que mais carrega esse apelido, documentado desde manuscritos do século XVIII.

Melipona orbignyi — presente no Centro-Oeste brasileiro, Bolívia, Paraguai e Argentina, é conhecida regionalmente como "manduri-de-Mato-Grosso".

Melipona torrida — espécie cuja identidade taxonômica só foi definitivamente esclarecida em 2013, décadas depois de sua descrição original.

Melipona asilvai — adaptada à caatinga nordestina, é uma espécie resistente, capaz de sobreviver em condições semiáridas.

Melipona favosa — uma das espécies de Melipona mais estudadas cientificamente no mundo, com décadas de pesquisas na Venezuela e na Holanda, mas que não ocorre no Brasil.

Melipona marginata carioca — subespécie descrita a partir de exemplares coletados na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Por que isso acontece?

Nomes populares de fauna e flora seguem uma lógica diferente da taxonomia científica. Eles nascem da observação cotidiana de comunidades locais — muitas vezes baseada em semelhanças visuais, comportamentais ou até no tipo de mel produzido —, e não necessariamente respeitam as fronteiras entre espécies definidas pela ciência. É comum que uma mesma comunidade batize abelhas parecidas com o mesmo nome, mesmo que a biologia molecular e a morfologia comprovem se tratar de linhagens evolutivas distintas.

Esse tipo de sobreposição reforça por que os nomes científicos — sempre em latim, sempre únicos — continuam sendo a ferramenta mais confiável para identificação precisa em pesquisas, mesmo quando os nomes populares carregam décadas (ou séculos) de tradição cultural.

Fontes: Camargo, J. M. F., Pedro, S. R. M. & Melo, G. A. R. (2023). Catalogue of Bees (Hymenoptera, Apoidea) in the Neotropical Region — moure.cria.org.br/catalogue.