O nome popular que chegou 158 anos antes da ciência: a história da Partamona chapadicola
A abelha "boca-de-barro" só foi descrita oficialmente em 2003, mas seu nome e seu comportamento já estavam registrados num texto sobre as abelhas do Piauí escrito em 1845, ainda no Brasil Imperial.
Às vezes o povo já sabe aquilo que a ciência ainda vai levar muito tempo para confirmar. A história da Partamona chapadicola, uma abelha sem ferrão do Norte e do Nordeste do Brasil, é um ótimo exemplo disso.
Uma descrição recente para um nome muito antigo
Para a ciência, a Partamona chapadicola é uma espécie jovem. Ela só foi descrita formalmente em 2003, pelos pesquisadores Silvia Pedro e João Camargo, num amplo trabalho de revisão do gênero Partamona, que reorganizou o grupo e apresentou várias espécies novas.
Mas o nome popular "boca-de-barro" é bem mais velho do que isso. Ele já aparece documentado em 1845, num dos primeiros textos escritos sobre as abelhas do Piauí, ainda no tempo do Brasil Imperial. E o registro não se limitava ao nome: o texto também trazia observações sobre o comportamento defensivo da abelha e sobre o lugar onde ela fazia seus ninhos.
Entre esse primeiro registro e a descrição científica oficial, passaram-se 158 anos.
Onde ela vive
A Partamona chapadicola é encontrada no Maranhão, no Pará, em Pernambuco, no Piauí e no Tocantins. O próprio nome científico entrega o seu ambiente: "chapadicola" significa algo como "habitante das chapadas", uma referência às formações de chapada típicas do Cerrado e das áreas de transição do Nordeste.
Como ela vive
Assim como várias abelhas do gênero Partamona, ela tem um jeito curioso de fazer seu ninho: aproveita ninhos de cupins escondidos dentro de troncos de árvores. É um exemplo de como as abelhas sem ferrão sabem usar as cavidades e estruturas já disponíveis na natureza.
A espécie também já foi registrada visitando as flores da algaroba, uma árvore muito comum no semiárido nordestino.
O nome "boca-de-barro" provavelmente vem de uma característica marcante do gênero: as abelhas Partamona costumam construir a entrada do ninho com barro misturado a resinas. E o comportamento defensivo que chamou a atenção em 1845 também combina com o grupo, conhecido por defender o ninho com vigor quando se sente ameaçado.
O conhecimento tradicional chegou primeiro
A história da boca-de-barro mostra como o conhecimento tradicional brasileiro, muitas vezes transmitido de forma oral, de geração em geração, pode ser preciso e duradouro. Quem convivia com essas abelhas já sabia reconhecê-las, dar um nome a elas e descrever seus hábitos, muito antes de a ciência formalizar a espécie.
Para a meliponicultura e para a pesquisa, esse tipo de registro é valioso. Nomes populares e observações antigas ajudam a entender onde as espécies viviam no passado, como as pessoas se relacionavam com elas e como esse conhecimento foi passando adiante.
No fim, a sabedoria popular estava um passo à frente. Só faltava alguém documentar.
Fontes
PEDRO, S. R. M.; CAMARGO, J. M. F. Meliponini neotropicais: o gênero Partamona Schwarz, 1939 (Hymenoptera, Apidae, Apinae): bionomia e biogeografia. Revista Brasileira de Entomologia, v. 47, suplemento 1, 2003.
[COMPLETAR: autor, título e publicação do texto de 1845 sobre as abelhas do Piauí]