WARWICK KERR: o cientista brasileiro que revolucionou a genética das abelhas
De uma introdução acidental que originou a abelha africanizada nas Américas a décadas de pesquisa sobre abelhas sem ferrão — e até duas prisões por se opor à ditadura militar —, conheça a trajetória de um dos maiores nomes da ciência brasileira.
Poucos cientistas brasileiros tiveram uma trajetória tão ampla — e tão marcada por momentos decisivos — quanto Warwick Estevam Kerr (1922–2018). Engenheiro agrônomo, geneticista e professor, Kerr dedicou boa parte da vida ao estudo da genética das abelhas, com destaque especial para o gênero Melipona, um dos grupos de abelhas sem ferrão mais estudados no Brasil — mas sua história vai muito além da ciência das abelhas.
Formação de peso internacional
Nascido em Santana do Parnaíba (SP), Kerr formou-se engenheiro agrônomo pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ-USP), em Piracicaba, onde fez doutorado sob orientação de Friedrich Brieger. Sua formação teve passagens internacionais marcantes: a convite do geneticista Theodosius Dobzhansky — um dos pioneiros da biologia evolutiva moderna —, realizou pós-doutorado na Universidade Columbia, além de estudos na Universidade da Califórnia.
O primeiro diretor científico da FAPESP
Em 1961, Kerr foi escolhido pelo governador Carlos Alberto Carvalho Pinto para se tornar o primeiro diretor científico da FAPESP, então recém-criada — a primeira fundação de amparo à pesquisa do Brasil. Para assumir o posto, precisou se desligar do Partido Socialista Brasileiro, pelo qual havia sido eleito vereador em Piracicaba, numa condição colocada pelo próprio governador para manter o cargo livre de vínculos partidários.
À frente da FAPESP entre 1961 e 1964, Kerr organizou os primeiros critérios de distribuição de recursos entre áreas do conhecimento, ampliou a oferta de bolsas de pesquisa e viajou por diversos países para estudar modelos de fomento à ciência — experiência que ajudou a moldar as políticas da própria fundação. Seu modelo de gestão também influenciou diretamente a criação de fundações de pesquisa em outros estados brasileiros, incluindo Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
O episódio que mudou a apicultura nas Américas
Também durante esse período de intensa atividade científica, ocorreu o episódio pelo qual Kerr é mundialmente conhecido: em 1957, em Rio Claro (SP), durante um experimento controlado de cruzamento entre abelhas europeias e abelhas africanas (Apis mellifera scutellata), um assistente de apicultura esqueceu de recolocar a grade excluidora de rainhas em uma das colmeias. O descuido permitiu que rainhas africanas escapassem e se cruzassem com populações locais — dando origem à chamada abelha africanizada, hoje a linhagem dominante de abelhas melíferas em praticamente todo o continente americano.
Resistência durante a ditadura militar
Entre 1969 e 1973, Kerr presidiu a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), justamente num dos períodos mais tensos da história recente do país — marcado por confrontos abertos entre o regime militar e a comunidade científica. Sua atuação à frente da entidade foi marcada por posições públicas de repúdio às arbitrariedades da ditadura, o que lhe custou caro: Kerr chegou a ser preso duas vezes, em 1964 e em 1969, em razão de seu posicionamento político.
Décadas dedicadas à Amazônia e à formação científica
Kerr também dirigiu o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus, em duas passagens distintas (1975–1979 e 1999–2001). Na primeira gestão, impulsionou de forma expressiva a estrutura científica da instituição: o quadro de pesquisadores saltou de cerca de 46 (somando as unidades de Belém e Manaus, com apenas quatro pós-graduados entre eles) para 266 pesquisadores, incluindo dezenas de mestres e doutores, em poucos anos.
Ao longo da carreira, também foi reitor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e, posteriormente, ajudou a implantar o curso de pós-graduação em genética e bioquímica na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Para Kerr, formar novos pesquisadores e grupos de pesquisa sólidos era um dos legados mais importantes que um cientista poderia deixar.
Reconhecimento e legado
Autor de mais de 600 publicações científicas, Kerr foi membro da Academia Brasileira de Ciências e o primeiro brasileiro a ingressar como membro estrangeiro na Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Morreu em setembro de 2018, aos 96 anos, deixando um legado que atravessa tanto a genética das abelhas quanto a própria história das instituições científicas brasileiras.
Fontes: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) — perfil biográfico de Warwick Kerr; Fundação Getulio Vargas; Revista Estudos Avançados (USP), abril de 2005; artigos científicos publicados por W.E. Kerr.
Foto: David De Jong, Vera Lucia Imperatriz-Fonseca, Lionel Segui Gonçalves, Tiago Mauricio Francoy — ©FUNPEC-RP (Universidade de São Paulo), via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)