A abelha que entrou para a ciência pela expedição de Humboldt e Bonpland

Descrita em 1811 a partir de material da famosa expedição de Alexander von Humboldt e Aimé Bonpland pelas Américas, a Melipona fasciata é uma das espécies mais antigas do gênero e ainda é criada por meliponicultores mexicanos.

A abelha que entrou para a ciência pela expedição de Humboldt e Bonpland

Algumas abelhas chamam a atenção pela biologia. Outras carregam um pedaço da história da ciência. A Melipona fasciata, uma abelha sem ferrão do México, está no segundo grupo: o seu primeiro registro científico está ligado a uma das viagens de exploração mais importantes de todos os tempos.

Uma das descrições mais antigas do gênero

A Melipona fasciata foi descrita em 1811 pelo entomólogo francês Pierre André Latreille. Isso a coloca entre as primeiras espécies do gênero Melipona a receber um nome científico. Ela também é a espécie-tipo do subgênero Michmelia, ou seja, a espécie usada como referência para definir esse grupo de abelhas.

Hoje, a espécie é considerada exclusiva do México, onde é encontrada em estados como Guerrero, Oaxaca e Veracruz.

A expedição que mudou a ciência

A descrição de Latreille foi publicada na obra que reuniu os insetos coletados durante a expedição de Alexander von Humboldt e Aimé Bonpland pelas Américas, entre 1799 e 1804.

Ao longo de cinco anos, o naturalista alemão Humboldt e o botânico francês Bonpland percorreram regiões da atual Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Cuba e México. Eles mediram, desenharam e coletaram milhares de plantas, animais e rochas. Os resultados ajudaram a lançar as bases da geografia moderna e da biogeografia, a ciência que estuda como os seres vivos se distribuem pelo planeta. A viagem também inspirou gerações de cientistas, entre eles Charles Darwin, que citava Humboldt como uma das suas grandes influências.

Coletada em Veracruz

Segundo os registros históricos, o exemplar que serviu de base para a descrição foi coletado em Veracruz, possivelmente pelo próprio Aimé Bonpland, que acompanhou Humboldt durante toda a jornada.

Um nome que já foi usado para muitas abelhas

Durante boa parte do século XX, o nome Melipona fasciata foi usado de forma ampla, para abelhas parecidas encontradas da América Central até a América do Sul. Em listas antigas, aparecem até subespécies como Melipona fasciata panamica e Melipona fasciata paraensis. Com o avanço dos estudos, muitas dessas formas passaram a ser tratadas como espécies diferentes, e o nome fasciata ficou restrito às abelhas do México.

Esse é um bom exemplo de como a classificação das abelhas sem ferrão continua mudando à medida que os pesquisadores estudam melhor cada grupo.

A "abelha real" do México

No México, a Melipona fasciata é conhecida popularmente como "colmena real" e "abeja real prieta". Ela continua sendo criada de forma tradicional por meliponicultores mexicanos, mantendo viva uma relação entre pessoas e abelhas nativas que existe há muitos séculos na região.

Mais de 200 anos depois

Mais de dois séculos depois da expedição, essa abelha ainda carrega, no próprio registro científico, um pedaço de uma das maiores aventuras da exploração das Américas. Cada vez que um pesquisador escreve "Melipona fasciata Latreille, 1811", está lembrando também a viagem de Humboldt e Bonpland.

Fontes

LATREILLE, P. A. Insectes de l'Amérique Équinoxiale, recueillis pendant le voyage de MM. de Humboldt et Bonpland. In: HUMBOLDT, A. de; BONPLAND, A. Recueil d'Observations de Zoologie et d'Anatomie Comparée. Paris, 1811.

CAMARGO, J. M. F.; PEDRO, S. R. M.; MELO, G. A. R. Catalogue of Bees (Hymenoptera, Apoidea) in the Neotropical Region – online version. moure.cria.org.br/catalogue.

AYALA, R. Revisión de las abejas sin aguijón de México (Hymenoptera: Apidae: Meliponini). Folia Entomológica Mexicana, n. 106, 1999.